Resenha: A História da Minha Vida, de Lucy Score

resenha do livro a história da minha vida

Uma autora de comédias românticas, um empreiteiro rabugento e a cidade que provou que recomeços existem — às vezes literalmente dentro da sua própria história

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FICHA RÁPIDA

  • Título original: Story of My Life
  • Data de publicação: EUA: 2025 | Brasil: 2025
  • Tropes: Grumpy x sunshine, forced proximity, small town romance, found family, dating pact
  • POV: Duplo (dual POV), em primeira pessoa
  • Temperatura: Quente — tem cenas explícitas, mas o peso emocional compete de igual pra igual com a tensão física
  • Faixa etária dos protagonistas: Adultos
  • Ambiente: Story Lake, cidade pequena no interior da Pensilvânia
  • Ritmo: Comédia romântica com slow burn emocional progressivo

Tem um tipo específico de bloqueio criativo que não tem nada a ver com falta de ideias. Tem a ver com não acreditar mais que você tem o direito de escrever histórias de amor quando a sua virou pó. Hazel Hart sabe exatamente como isso funciona. Ela passou dois anos parada na frente de uma tela em branco, incapaz de escrever uma linha sequer sobre casais felizes enquanto tentava sobreviver a um divórcio deprimente.

Lucy Score constrói o gancho deste livro com uma ironia afiada: a especialista em finais felizes que não consegue mais escrever porque parou de acreditar neles. É uma premissa que qualquer leitora de romance vai sentir direto no peito — porque quem lê romances sabe que, às vezes, a gente precisa deles exatamente para renovar as esperanças e a própria fé no amor.

A História da Minha Vida é sobre uma mulher que precisou mudar de Nova York para uma cidade pequena da Pensilvânia para lembrar de uma coisa que parece simples, mas não é: o happily ever after não é um destino. É um projeto que você escolhe todos os dias. Inclusive nos dias em que preferiria não escolher.

Hazel Hart tem 36 anos, dois anos de divórcio nas costas, um editor que está prestes a cortá-la do contrato, uma melhor amiga e agente que acabou de ser demitida por causa dela, e cinco dias para desocupar o apartamento em Nova York, que ela dividia com o ex-marido apenas no contrato de hipoteca, não na escritura. A vida de Hazel não está indo bem.

Numa madrugada de desespero, procurando referências antigas para seu próximo livro, ela encontra uma reportagem esquecida numa pasta de inspiração: uma cidadezinha da Pensilvânia que se uniu para reformar a casa de uma moradora idosa. Na foto, três irmãos. O do meio, carrancudo de um jeito que parece proposital, olha direto para a câmera com aquele ar de “eu preferia estar em qualquer outro lugar.” E Hazel sente, pela primeira vez em muito tempo, aquele formigamento familiar: esse cara é um personagem.

Seis horas depois, ela comprou a casa da reportagem, que por acaso é uma mansão em estado deplorável que não se parece em absolutamente nada com as fotos do anúncio. Ela se muda para Story Lake, Pensilvânia, levando a melhor amiga Zoey junto. E Campbell “Cam” Bishop, o empreiteiro rabugento de quem ela precisa para reformar a casa, é o mesmo homem da foto que a tirou do bloqueio criativo.

O plano: ficar um tempo na cidade, escrever o melhor livro da carreira, salvar o emprego dela e o de Zoey, e usar o homem mal-humorado como inspiração — com a permissão dele, claro, num dating pact puramente para fins de pesquisa literária. Claro que nada sai como planejado. E é exatamente aí que o livro começa de verdade.

Hazel Hart

Lucy Score tem um talento específico para criar protagonistas femininas que são, ao mesmo tempo, difíceis de olhar diretamente e impossíveis de largar. Hazel é esse tipo de personagem.

Ela está uma bagunça quando o livro começa. Não no sentido dramático de crise existencial, mas no sentido literal: apartamento sujo, higiene negligenciada, semanas sem abrir as redes sociais, dois anos sem publicar nada. O ex-marido Jim não a machucou de formas óbvias: ele fez algo mais silencioso e, provavelmente, mais duradouro. Passou anos convencendo Hazel de que o trabalho dela não valia muito. De que romance como gênero era frivolidade. De que ela precisava da aprovação dele para ter valor. E Hazel, que sempre foi mais observadora do que participante da própria vida, deixou.

A Velha Hazel — como ela mesma chama — está morta e enterrada quando o livro começa. O que resta é alguém que precisa descobrir quem é a Hazel que vem depois.

O que torna essa jornada deliciosa de acompanhar é a autoconsciência que Hazel tem de tudo o que está acontecendo com ela. Ela é escritora de comédias românticas. Ela conhece os tropes. Ela sabe reconhecer um herói grumpy, uma forced proximity, um fake dating, o momento em que tudo desmorona antes do final feliz. E o tempo todo ela está vivendo dentro dessas estruturas sem conseguir evitar — e comentando sobre isso com o humor seco de quem passou a carreira inteira construindo esses roteiros para outras pessoas.

Tem algo profundamente honesto nisso. Hazel não é a heroína que resolve tudo com graça. Ela compra uma casa às quatro da manhã sem ter ido vê-la antes. Ela bate no carro de outra pessoa na primeira tentativa de abastecer. Ela quase mata, acidentalmente, uma águia careca. Ela negocia um acordo de sexo sem compromisso, assina como se fosse um contrato e acha que está sendo muito racional sobre tudo isso.

E quando as coisas ficam difíceis de verdade — quando o passado aparece para cobrar — a Hazel que responde não é mais a mesma que deixou Nova York. Isso não acontece de repente. Acontece página por página, escolha por escolha, nas pequenas decisões de ser a protagonista da própria vida em vez de figurante da vida de outro.

Campbell “Cam” Bishop

Cam é o tipo de grumpy hero que Lucy Score sabe criar com uma clareza que faz outras versões do arquétipo parecerem rasas: ele não é mal-humorado por caráter. Ele é mal-humorado porque aprendeu, da forma mais difícil, que as coisas que você ama podem desaparecer sem aviso. E manter todo mundo a uma distância segura é, em teoria, uma forma de não perder mais nada.

A história dos irmãos Bishop tem um peso que o livro vai revelando aos poucos. Cam, Levi e Gage são irmãos adotivos que encontraram na família Bishop o lar que não tinham. Mas Cam saiu de lá. Construiu uma carreira em Maryland, numa empresa de incorporação imobiliária, e foi se sentindo cada vez mais vazio enquanto a família ficava para trás. Quando algo sério aconteceu com Laura, a irmã mais velha, ele largou tudo e voltou para Story Lake. Assumiu a construtora da família que estava afundando. E ficou.

O que exatamente aconteceu, e o peso real que isso tem para ele e para os Bishops, o livro revela no momento certo. O que importa saber é que Cam carrega uma culpa que racionalmente ele sabe que não muda nada, mas que não consegue deixar pra lá. Isso explica por que ele olha para Hazel com aquela mistura de irritação e atenção que os grumpy heroes carregam quando estão perdendo a batalha contra os próprios sentimentos.

Cam não sabe que está se apaixonando. Ou sabe, mas chama de outra coisa. Chama de “inconveniente.” Tem uma cena específica em que ele chega para trabalhar na casa de Hazel e — porque ela estava dormindo enquanto ele ficou acordado noite inteira pensando no beijo deles — decide começar a demolição do banheiro ao lado do quarto dela. Com toda a deliberação de alguém que não aguenta que o mundo continue normal enquanto ele está em colapso interno silencioso. É uma das cenas mais engraçada do livro. E também, de uma forma pouco convencional, uma das mais românticas.

Quando Cam recua — e você está esperando pelo dark moment, claro, porque sabe o trauma que ele carrega — a cena dói. É completamente compreensível e difícil de acompanhar ao mesmo tempo. Ele diz coisas que não acredita. Mas quando chega o momento de consertar, Cam não só pede desculpa. Ele vai atrás das raízes do problema e as arranca. A redenção do Cam é do tipo que faz você querer abraçar o livro.

A dinâmica e os tropes

A História da minha vida entrega o grumpy x sunshine numa versão que não é decorativa. Hazel é sunshine não porque seja ingenuamente otimista, mas porque escolheu ativamente não se fechar. Cam é grumpy não por pose, mas por proteção. E a tensão entre eles não é de incompatibilidade — é de reconhecimento. Os dois se enxergam de um jeito que ninguém mais os enxergou antes.

O dating pact começa como pesquisa literária — Hazel precisa de material para escrever o casal do livro — e vai se tornando real de uma forma tão orgânica que você mal percebe o momento exato em que cruzou a linha. Lucy Score tem uma habilidade específica de construir intimidade através de conversas, de pequenos gestos, de risadas que ninguém mais entenderia.

A forced proximity funciona em camadas: a reforma da casa coloca Cam no espaço de Hazel todos os dias, mas é Story Lake inteira que funciona como catalisador. A cidade pequena não é cenário — é personagem. Todo mundo sabe de tudo, todo mundo se mete, todo mundo cuida. A comunidade que Hazel encontra ali funciona como o oposto exato do isolamento de Nova York.

E eu preciso falar da autoconsciência de gênero que o livro sustenta do início ao fim. Hazel vive os tropes enquanto os comenta. Ela identifica o meet-cute desastroso, o dark night of the soul iminente — e tem um momento em que ela claramente confronta Cam: “Você está tentando provocar um desentendimento que vai nos forçar a nos separar. Leitores não gostam disso nos livros, e mulheres definitivamente não gostam na vida real.” Lucy Score usa essa camada de metaficção com inteligência — não para desconstruir o gênero, mas para homenageá-lo enquanto adiciona uma dimensão extra de humor e honestidade.

A História da Minha Vida fala de uma coisa que parece simples e não é: a diferença entre acreditar que a felicidade é um destino e entender que, na verdade, a felicidade é um projeto. Hazel passou anos acreditando no HEA como ponto final — você encontra a pessoa certa, se casa, e a vida fica bem para sempre. O fracasso do casamento com Jim virou, na cabeça dela, evidência de que ela tinha usado sua única chance. Que não existia mais final feliz para a Hazel Hart.

O livro vai desmontando essa crença com a paciência de quem sabe que não adianta confrontar. A mãe de Hazel — que está prestes a se casar pela sétima vez — aparece no livro e vira um espelho inesperado. Hazel para de enxergá-la como símbolo de fracasso repetitivo e passa a vê-la como uma mulher que continua escolhendo o amor, continua tentando, continua acreditando que o próximo capítulo pode ser melhor.

Cam passa pelo mesmo arco, mas não posso dar muitos detalhes sem entregar spoilers. O que posso dizer é que a cena da intervenção dos pais de Cam — quando eles se sentam com ele e dizem que falharam porque “os Bishops não falam sobre sentimentos” — é uma das mais bonitas do livro. Não é melodramática. É uma família reconhecendo um padrão e escolhendo quebrá-lo.

Os dois precisam aprender a mesma coisa por caminhos diferentes: que a perda é garantida, mas isso não é motivo para não amar.

Com sempre, faço a crítica honesta. A História da Minha Vida é um livro generoso em tamanho, e tem momentos em que dá pra sentir. A trama secundária da crise financeira de Story Lake e o embate com a cidade vizinha de Dominion cumpre um papel narrativo importante — é o que dá a Hazel um propósito dentro da comunidade além do romance — mas tem sequências que se alongam bastante. Quem está lendo principalmente pelo casal pode sentir algumas derrapadas de ritmo no meio do segundo ato.

Tem também uma resolução de conflito externo que exige do leitor certa suspensão de crença. O mecanismo que o livro usa para fechar a situação com Jim é conveniente de um jeito que contrasta com o cuidado com que tudo foi tratado até ali. Lucy Score prepara o terreno emocionalmente, mas a engrenagem prática é rápida demais para o peso que o problema tinha.

Mas aqui está o que importa: essas ressalvas não comprometeram em nada o impacto do livro. Nenhuma delas impediu a reta final de funcionar exatamente como deveria. Nenhuma delas fez o grovel do Cam soar menos merecido. E nenhuma delas apagou o fato de que, quando você fechar esse livro, vai acreditar que o próximo capítulo pode, de fato, ser melhor do que o anterior.

Lucy Score tem um universo literário — Knockemout — que eu amo com uma intensidade que já virou assunto de post aqui no blog. E quando soube que ela estava lançando uma nova série, a expectativa estava alta demais para ser justa com qualquer livro. A História da Minha Vida foi mais do que justo. Foi exatamente o tipo de livro que eu precisava ler, no momento certo, sobre a coisa certa.

Hazel não é a heroína mais corajosa que já li, mas é uma das mais honestas. E Cam não é o mais perfeito dos heróis, mas é o tipo de homem que fica sem dormir pensando no beijo e decide punir a situação demolindo um banheiro às sete da manhã — e isso, como sabemos, conta mais do que qualquer grande declaração.

Story Lake é o tipo de cidade fictícia que você quer visitar de verdade. A cura que acontece ali — tanto para Hazel quanto para quem está lendo — tem uma qualidade que Lucy Score sabe construir melhor do que quase qualquer outro nome do gênero: ela faz você acreditar que pertencimento existe, que recomeços existem, e que o próximo capítulo pode, de fato, ser melhor do que o anterior.

E quando você fechar esse livro, vai relembrar porque começou a ler romance. Porque às vezes é isso que um bom livro faz: devolve a fé no próprio gênero.

O que vem por aí

Quem ficou de olho em Zoey e Gage ao longo deste livro — e seria difícil não ficar — vai ter o que queria. Mistakes Were Made, o segundo volume da série Story Lake, já foi publicado nos EUA em março de 2026 e traz exatamente esse casal: a agente literária alérgica ao amor e o irmão Bishop que acredita em happy endings com uma convicção que ela acha irritante. Ainda não há previsão de publicação no Brasil, mas assim que tiver novidades atualizo aqui.

E o terceiro e último livro da série já tem nome e data: Just One More Chapter, com lançamento previsto para março de 2027 nos EUA. É a vez de Levi — o mais reservado dos Bishop, aquele que carrega um segredo que a série planta com cuidado desde o primeiro livro. A editora americana anunciou o lançamento com a energia de quem sabe exatamente o que está fazendo: “Mr. Levi Bishop, we are so ready for you”. É, eu também.

É para você que…

  • Curte grumpy x sunshine com profundidade emocional real, não só estético
  • Se interessa por protagonista feminina que reconstrói identidade depois de relacionamento que foi aos poucos diminuindo quem ela era
  • Quer um romance que fale sobre o que é ser leitora de romance — com humor, carinho e metalinguagem bem usada
  • Gosta de small town romance com found family real, não decorativa
  • Aguenta slow burn com humor e quer um grovel que valha cada página de espera
  • Já leu Knockemout e quer ver Lucy Score em sua melhor forma

Não é para você que…

  • Prefere romances enxutos — esse livro é generoso em tamanho e em detalhes de subplot.
  • Não tem paciência para trama comunitária e política de cidade pequena ao lado do romance principal
  • Se irrita com herói que comete erros sérios antes do grovel — o dark moment do Cam dói de verdade
  • Quer resolução de conflito externo 100% realista — o desfecho de uma situação específica aqui exige certa generosidade
  • Não curte referências metaficcionais ao gênero dentro do próprio romance

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