Uma bailarina, um quarterback e a amizade que durou tempo demais para continuar sendo só amizade
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FICHA RÁPIDA
- Título original: The Cheat Sheet
- Data de publicação: EUA: 2021 | Brasil: 2022
- Série: Los Angeles Sharks, livro #1
- Tropes: Friends to lovers, fake dating, sports romance, sunshine x popular, found family
- POV: Duplo (dual POV), em primeira pessoa
- Temperatura: Morno — tensão bem construída, química palpável, mas sem cenas explícitas
- Faixa etária dos protagonistas: Adultos
- Ambiente: Los Angeles — universo do futebol americano profissional
- Ritmo: Slow burn com humor
Você já ficou olhando para dois personagens durante metade de um livro pensando “pelo amor de Deus, vocês dois já perceberam, né?” enquanto eles continuam ali, completamente alheios à própria situação? Bem-vinda a Táticas do Amor, o livro que viralizou no TikTok antes mesmo de ter tradução em português — e que entrega tudo o que promete.
Bree Camden e Nathan Donelson são melhores amigos desde o ensino médio. Ela, bailarina com sonhos interrompidos por um acidente e hoje dona de um estúdio para alunas de baixa renda. Ele, quarterback da NFL e lenda dos Los Angeles Sharks. Os dois se apaixonaram um pelo outro há anos. Os dois acham que o sentimento não é correspondido. E os dois constroem uma performance de amizade platônica tão convincente que você vai querer sacudir as páginas.
Conheça Bree Camden: uma das protagonistas mais gostosas de ler no romance contemporâneo. Ela é generosa até quando não pode, distribui mimos personalizados para todo mundo que ama, cozinha para o vizinho que passou mal e ainda consegue transformar uma festa de aniversário infantil num acontecimento. Não é a sunshine ingênua que só sorri: ela tem voz, tem espinha, e tem aquela capacidade específica de ver os outros com uma clareza que não consegue aplicar a si mesma. Especialmente quando o assunto é Nathan.
Nathan Donelson é o tipo de herói que a Sarah Adams sabe construir: por fora, a lenda da NFL com o rostinho na capa de revista esportiva. Por dentro, um homem que secretamente paga o aluguel do estúdio da melhor amiga há quatro anos, deixa bilhetes de cem dólares no correio da vizinha dela e guarda numa caixa o elástico de cabelo dela desde o ensino médio. Aquele elástico que ainda cheira ao shampoo de coco dela. Ela ainda não sabe disso. Mas você vai saber. E vai precisar respirar.
O catalisador de tudo é um vídeo que vai parar no TMZ. Bree, um pouco além do limite de tequila recomendado, diz umas verdades para uma repórter disfarçada numa festa. O vídeo viraliza. A assessoria de imprensa de Nathan vê uma oportunidade. E de repente os dois estão fingindo namorar até um comercial protagonizado por eles ir ao ar no Super Bowl. Regras estabelecidas, prazo determinado e a missão impossível de continuar sendo só amigos enquanto fazem exatamente o oposto diante das câmeras.
O fake dating aqui não é um truque de roteiro. É a válvula que Sarah Adams usa para desmontar anos de contenção. Cada situação que o “relacionamento falso” cria — a sessão de fotos do comercial, o tapete vermelho, a festa onde Nathan planeja o beijo com a antecedência de um quarterback estudando jogadas — é uma nova camada de intimidade que os dois fingem que não está acontecendo. A tensão não é de “quando será que vão ficar juntos”. É de “quanto tempo ainda vão conseguir fingir que não estão juntos”.
O tema emocional que sustenta tudo não é o romance em si, é o medo de sonhar. Bree perdeu o sonho do ballet para um acidente que não pediu licença para acontecer. Desde então, construiu uma vida bonita e boa, mas aprendeu a não querer demais, a não esperar demais, a não se apaixonar por alguém que pode não ficar. Nathan tem o lado oposto do mesmo problema: cresceu com dinheiro e pressão, e carrega uma culpa silenciosa que o faz achar que não merece descanso, que não tem direito de sentir ansiedade, que precisa trabalhar o dobro só para justificar o que já tem. São dois personagens que aprenderam a se proteger da maneira errada e que vão precisar aprender a ser vulneráveis juntos antes de conseguirem ser honestos um com o outro.
Sarah Adams não desperdiça isso. A cena do ataque de pânico de Nathan numa festa de aniversário infantil, de todos os lugares possíveis, é uma das mais bem escritas do livro: Bree o encontra num quarto de lavanderia e faz exatamente o que é preciso, sem drama, sem julgamento, com toda a competência de quem já esteve no mesmo lugar. E é ali, quando ele finalmente deixa que ela veja o que está embaixo da armadura, que os dois param de fingir que são apenas amigos.
A crítica honesta: o ritmo da resolução final é rápido. Do ‘eu te amo’ ao capítulo de fechamento, tudo acontece num piscar de olhos que pode surpreender quem esperava mais tempo com o casal já assumido. E a mãe de Nathan funciona mais como obstáculo de cenário do que personagem com real peso na história. São ressalvas menores para um livro que entrega exatamente o que se propõe, mas vale saber antes de entrar.
Táticas do Amor é sobre a coisa mais difícil que a amizade pode cobrar: a coragem de arriscar o que você já tem por algo que pode ser ainda melhor. Bree e Nathan passaram seis anos sendo o melhor da vida um do outro enquanto fingiam que era suficiente. Spoiler: não era. E Sarah Adams nos faz sentir cada ano desse atraso antes de deixar os dois chegarem aonde sempre deveriam ter chegado.
É para você que…
- Ama friends to lovers com aquela tensão de anos acumulados que explode no momento certo
- Quer um herói que prove amor em ações antes de provar em palavras
- Curte protagonista feminina generosa, engraçada e com camadas reais por baixo da leveza
- Gosta de fake dating que vai além do dispositivo de plot e vira motor emocional de verdade
- Quer um romance que faça você rir numa cena e segurar o fôlego na seguinte
- Não precisa de cenas explícitas para sentir a tensão — aqui o que não está escrito pesa tanto quanto o que está
Não é para você que…
- Se irrita com personagens que demoram demais para perceber o óbvio
- Espera um arco de relacionamento longo depois da confissão — a resolução é rápida
- Precisa de conflito externo dramático — o obstáculo aqui é quase inteiramente interno
- Não tem paciência para dual POV com dois personagens igualmente teimosos
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Paula é formada em Jornalismo, o que explica por que ela escreve mil palavras sobre um trope só. Lê romance quase exclusivamente e não pretende mudar isso — os outros gêneros que lutem. É fundadora do Entre Tropes e divide a casa com dois filhos pequenos, quatro gatos, um cachorro e uma quantidade de livros que ela prefere não estimar em voz alta.



