Resenha: As Coisas que Nunca Superamos, de Lucy Score

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Uma noiva fugitiva, um ranzinza com covinhas, uma sobrinha que chegou sem avisar — e Knockemout, a cidade que vai te sequestrar pelo coração

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FICHA RÁPIDA

  • Título original: Things We Never Got Over
  • Data de publicação: EUA: 2022 | Brasil: sem data oficial
  • Tropes: Grumpy x sunshine, found family, small town romance
  • POV: Duplo (dual POV), primeira pessoa
  • Temperatura: Quente — cenas explícitas, mas o peso emocional compete de igual pra igual com a tensão física
  • Ritmo: Dinâmico, com humor nas primeiras metades e emoção crescente na reta final

O que acontece quando a sua vida desmorona toda de uma vez e você decide que a melhor saída é fugir pela janela do banheiro da igreja, no seu próprio ensaio de casamento? A resposta de Lucy Score é: você encontra Knockemout. E Knockemout encontra você de volta.

As Coisas que Nunca Superamos é o primeiro livro da série Knockemout e o que deu a Lucy Score o salto definitivo para o New York Times. Terminei em dois dias. Dormi mal. Não me arrependo de nada.

Naomi Witt fez tudo certo a vida inteira — foi a boa filha, a irmã responsável, a noiva perfeita de um empresário rico que todo mundo aprovava. Até que ela parou, olhou para a própria vida e escapou pela janela de um banheiro antes de dizer ‘sim’ para alguém que claramente não merecia esse ‘sim’.

A próxima parada: Knockemout, uma cidadezinha fictícia no norte da Virgínia, onde sua irmã gêmea Tina precisava de ajuda. O problema é que Tina rouba o dinheiro, rouba o carro, e some — deixando pra trás uma sobrinha de 11 anos que Naomi nem sabia que existia, chamada Waylay. E é assim, sem bagagem, sem plano e com uma criança que não pediu pra estar ali, que Naomi inicia o único recomeço honesto da sua vida.

Naomi é uma dessas personagens que a gente ama exatamente pelos motivos errados — pela insegurança, pela teimosia, pela generosidade que às vezes sangra. Ela é a mulher que ficou a vida toda compensando o caos da irmã gêmea sendo a parte responsável da equação. O que a torna fascinante não é a força dela, mas o momento em que ela percebe que passou décadas construindo uma identidade baseada no que os outros precisavam que ela fosse.

Quando ela finalmente para — porque Waylay literalmente a força a parar — o que Naomi descobre é que ela nem sabe direito quem é sem estar carregando alguém. E ver ela se encontrar, ao mesmo tempo que aprende a amar essa sobrinha caída do céu, é uma das coisas mais bonitas do livro.

Knox Morgan é dono do bar, dono da barbearia, e parte do tecido econômico de Knockemout — um homem que cuida da cidade à sua maneira, sem anunciar. Ele ganhou na loteria, literalmente. Onze milhões de dólares que deveriam ter simplificado a vida, mas que na prática criaram uma rachadura com o irmão que nunca fechou direito.

Knox é o tipo de homem que ama pela ação e se machuca pelo silêncio. Grumpy com uma profundidade que você vai demorando para entender: ele não é ranzinza por hábito, é ranzinza porque aprendeu que abrir espaço para as pessoas eventualmente termina em perda. Sua dinâmica com Naomi é o tipo de coisa que faz você acreditar no trope grumpy x sunshine de uma forma que vai além da fórmula.

E esse é um trope que pode cair fácil no clichê — o mal-humorado que muda, a otimista que “conserta” alguém como se fosse um projeto. Lucy Score não faz isso. Knox não muda porque Naomi é simpática. Ele muda porque Naomi é corajosa de um jeito que ele não esperava, e porque Waylay — essa personagem secundária que rouba todas as cenas — cria um contexto que transforma o romance em algo que parece família antes de parecer casal.

E Waylay? Ah, eu preciso de um momento para falar de Waylay. Com 11 anos, criada por uma mãe que claramente a negligenciou e que usou a filha como recurso, ela é uma criança de inteligência afiada e que aprendeu cedo a não mostrar o que dói. Você vai querer entrar no livro e adotá-la. É ela quem ancora emocionalmente a história toda — e saber que uma parte do coração de Knox vai estar sempre com ela é o que o torna irresistível.

Knox é mal-humorado de verdade. Não é o grumpy estético e inofensivo de certos romances. Ele diz coisas duras, ele recua de formas que machucam, ele comete erros que não se consertam com um pedido de desculpa bonito. Algumas leitoras vão achar isso frustrante. Eu achei honesto.

O que é genuinamente criticável: o subplot de ação com a organização criminosa que envolve a irmã de Naomi é, honestamente, o ponto mais fraco da série inteira. Funcionalmente, cumpre o papel de criar perigo e urgência, mas é onde o livro mais parece fórmula.

A fortuna de Knox vinda da loteria é um detalhe que poderia soar como atalho — mas Lucy Score não usa o dinheiro do jeito que se espera. Ele não impressiona Naomi, não resolve os problemas do casal, não compra nada que importa. Serve, na verdade, para o oposto: mostrar que Knox acreditava que dinheiro poderia consertar o que estava quebrado na família, e que ele estava errado. A loteria é menos um privilégio e mais uma armadilha da qual ele ainda está tentando sair.

E sobre a temperatura do livro, é importante deixar claro: Lucy Score escreve com cenas sexuais detalhadas e abertas que fazem parte da narrativa — não são decoração e as portas não se fecham antes das cenas ficarem explícitas. Elas têm peso emocional real e servem ao desenvolvimento dos personagens, mas estão lá, e com uma frequência que vai surpreender quem costuma ler romances onde a intimidade fica mais nas entrelinhas. Isso não é um defeito. É uma característica. É o livro sendo honesto sobre o que é. Mas se você tem preferência por romances que ficam fora do quarto, fica o aviso.

Esse livro trata de algo que parece simples, mas não é: o custo de viver a vida que os outros desenharam pra você. Naomi passou décadas sendo o antídoto do caos da irmã. Knox passou anos comprando segurança com o dinheiro que não deveria ter. Naomi chega à cidade sem saber bem o que quer — só com a certeza de que não queria a vida que deixou para trás. Knox há anos não se pergunta o que quer, pois construiu uma vida que funciona, e funcionar sempre pareceu suficiente.

O problema é que cidade pequena não deixa ninguém se esconder por muito tempo. E Knockemout, especificamente, tem o hábito irritante de colocar as pessoas exatamente onde elas precisam estar. Isso é algo que Lucy Score faz muito bem aqui: a comunidade não é um pano de fundo. É uma personagem. As amizades que Naomi constrói ali, a forma como a cidade se mobiliza quando ela precisa, a found family que surge sem anúncio — tudo isso tem peso emocional real e vai ficando mais rico à medida que a série avança.

Tem um momento em que Knox olha para Naomi e Waylay e simplesmente decide. Não tem discurso bonito. Não tem revelação dramática. Ele só decide, e você sente o peso disso porque Lucy Score passou as últimas 500 páginas te mostrando o quanto demorou pra ele construir essa decisão.

É exatamente o tipo de fechamento que faz você querer o livro seguinte às 2h da manhã. E o livro seguinte existe. E é sobre o irmão de Knox. E o irmão levou um tiro no primeiro livro e você está emocionalmente comprometida com a recuperação dele sem nem ter percebido quando isso aconteceu.

Bem-vinda a Knockemout. Você não vai querer sair.

É pra você que…

  • Curte grumpy heroes que têm razões reais para ser como são
  • Se emociona com histórias de recomeço e autodescoberta
  • Gosta de found family construída de forma orgânica dentro do romance
  • Aguenta (e gosta de) personagens secundários que roubam cenas
  • Quer um romance com substância emocional e humor afiado ao mesmo tempo
  • Está pronta para uma série que vai te sequestrar pelos três livros

Não é pra você que…

  • Não tem paciência com heróis verbalmente bruscos que erram de formas que doem
  • Prefere romances mornos sem cenas explícitas
  • Se irrita com subplots de ação em romance contemporâneo
  • Quer uma história de série que funcione perfeitamente sem ler os outros livros — aqui a ordem importa bastante

Você também vai gostar:

→ Amou Nash Morgan e quer saber o que acontece com ele? Ele é o protagonista do próximo livro, As Coisas que Guardamos em Segredo.

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