Resenha: As Coisas que Guardamos em Segredo, de Lucy Score

as coisas que guardamos em segredo post

Um chefe de polícia com PTSD, uma investigadora que fez do isolamento um estilo de vida, e a cidade de Knockemout que, teimosamente, cuida dos dois

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FICHA RÁPIDA

  • Título original: Things We Hide from the Light
  • Data de publicação: EUA: 2023 | Brasil: sem data oficial
  • Tropes: Opostos que se atraem, forced proximity (vizinhos), small town
  • POV: Duplo (dual POV), primeira pessoa
  • Temperatura: Quente — cenas explícitas, com uma construção de tensão que testa a paciência da melhor forma
  • Ritmo: Consistente, com mais peso emocional que o primeiro e um arco de PTSD tratado com seriedade

Se você leu o primeiro livro da série Knockemout, As Coisas que Nunca Superamos, então você sabe que Nash Morgan levou dois tiros enquanto tentava desmobilizar uma operação criminosa. E você sabe que enquanto ele estava hospitalizado, Knox e Naomi estavam apaixonados do lado de fora e você nem teve tempo de se preocupar com ele direito.

Agora você vai se preocupar. Nash tem transtorno de estresse pós-traumático (PTSD). Nash não lembra do que aconteceu. Nash está se desmontando por dentro enquanto mantém o sorriso e a farda. E a cidade inteira acredita que está tudo bem.

Lucy Score pega esse homem — que era, no primeiro livro, a versão mais fácil e acessível dos irmãos Morgan — e o desmonta peça por peça antes de reconstruí-lo. E faz isso de um jeito que dói, que parece real, e que entrega um dos arcos de saúde mental mais bem escritos que já encontrei no gênero.

Meses depois do tiroteio que quase custou a vida de Nash, Angelina Solavita — Lina — se muda para o apartamento ao lado. Ela é investigadora de seguros especializada em recuperar objetos roubados, está em Knockemout por uma missão que prefere manter em segredo, e tem regras muito bem estabelecidas sobre envolvimento emocional: nenhum.

O problema é Nash. Que está claramente mal. Que ela não consegue ignorar, mas que gradualmente vai encontrando no apartamento ao lado algo que não tinha planejado encontrar em nenhum lugar.

Lina é o tipo de personagem que divide opiniões — e entendo por quê. Ela é fria de propósito, independente de um jeito que às vezes parece armadura, e comunicativa apenas quando convém. Sua história de fundo envolve um problema cardíaco que quase a matou aos 15 anos e que ela passou décadas usando como justificativa para não se apegar a nada nem a ninguém.

O que é genuíno e poderoso nela: a consciência de que ela construiu um mecanismo de defesa que funciona até o momento em que para de funcionar. Quando Nash finalmente chega a um lugar que ela não consegue mais ignorar, o processo de Lina baixando as defesas sem perder quem ela é — a competência, a independência, o humor cortante — é um dos arcos mais satisfatórios do livro.

Lina pode soar distante demais, com uma frieza calculada que às vezes impede o leitor de se conectar. Eu entendo isso. Mas acho que essa frieza é o ponto — e que o livro justifica o suficiente para que valha a pena ter paciência.

Nash Morgan é uma surpresa maravilhosa. No primeiro livro ele era o irmão simpático, o homem de princípios, o contrapeso do grumpy do Knox. Aqui você descobre que ser o irmão simpático também tem um custo: todo mundo espera que ele esteja bem, então ele finge estar bem mesmo quando está se desmontando.

A representação de PTSD nesse livro é séria. Não é decorativa. Nash tem ataques de pânico com sintomas físicos reais, flashbacks que não obedecem à lógica, paranoia que o isola justamente quando mais precisa de apoio. Lucy Score trata isso com um cuidado que vai além do recurso narrativo — você aprende sobre a doença sem sentir que está lendo um texto informativo, e o impacto que ela tem nos relacionamentos de Nash é parte fundamental do arco do casal. Esse é um herói ferido que não resolve os problemas com uma declaração bonita. E que é melhor do que qualquer versão mais fácil que o livro poderia ter entregado.

Opostos que se atraem funciona aqui de um jeito específico: Nash quer ficar, Lina quer ir. Nash precisa de estabilidade, Lina fez do movimento um estilo de vida. Nash está exposto depois do tiroteio, Lina passou décadas construindo paredes entre ela e qualquer coisa que pudesse doer.

O que os salva de ser apenas um casal de clichês opostos é que Lucy Score mostra como eles se espelham em coisas essenciais: os dois sobreviveram a experiências de quase-morte, os dois aprenderam a esconder o que machuca, os dois têm uma relação complicada com o controle como estratégia de sobrevivência. Quando os dois finalmente param de fingir, o que emerge tem uma textura de dois adultos que se reconhecem — não que se completam de forma simplista.

Uma crítica válida: o casal não tem tempo suficiente de conversa real, de se conhecer além da tensão e do sexo. A narrativa privilegia o arco emocional de cada um individualmente, e às vezes a construção da intimidade do casal fica mais implícita do que explícita.

O que esse livro faz muito bem: a representação de PTSD, o arco de Nash, a forma como a relação com o pai dos irmãos Morgan é trabalhada com nuance real, e a cena do salto de paraquedas, que é ao mesmo tempo a coisa mais absurda e mais emocionalmente precisa do livro inteiro. Atados um ao outro, caindo, sem chão embaixo. É Lucy Score sendo completamente transparente sobre o que o livro inteiro está dizendo: alguns riscos só valem a pena quando você não está sozinho neles.

O que é mais discutível: o subplot criminal da família Hugo fica ainda mais pesado aqui do que no primeiro livro. Funciona como motor de plot, mas cria uma tensão de thriller que às vezes compete com o romance em vez de complementá-lo. Nem todo mundo gosta.

E Lina, para um perfil de leitoras que prefere personagens imediatamente acessíveis, pode ser uma protagonista exigente. Não é um defeito — é uma escolha — mas vale o aviso. No geral, é um livro que acho melhor que o primeiro em profundidade emocional, e ligeiramente mais difícil em termos de conexão imediata com a protagonista. Um trade-off que, pessoalmente, valeu.

Esse livro é sobre o que acontece quando você usa o controle como defesa por tempo demais. Nash perdeu o controle de uma forma devastadora — levou dois tiros e não lembra. Lina mantém o controle com uma precisão quase militar porque perdeu o controle uma vez, aos 15 anos, quando o coração parou na frente de todo mundo. O que os dois precisam aprender não é a abrir mão do controle completamente — é entender que algumas coisas só existem quando você decide confiar em alguém. Que vulnerabilidade compartilhada é diferente de fraqueza exposta.

E Knockemout, como sempre, funciona como um personagem: a comunidade que está presente sem ser sufocante, que aparece na hora certa, que prova que encontrar o amor não é responsabilidade de dois adultos sozinhos no apartamento ao lado.

Quando você fechar esse livro, vai entender por que Nash passou meses fingindo que estava bem. Não porque era fraco — mas porque às vezes é mais fácil carregar sozinho do que explicar o peso para alguém. E também vai querer Lucian e Sloane — e o terceiro livro existe, está aqui, e não tem desculpa.

É pra você que…

  • Se interessa por representação honesta de PTSD e saúde mental em romance
  • Curte heróis feridos que crescem de verdade ao longo da história
  • Gosta de protagonistas femininas que não são imediatamente acessíveis e que têm razões reais para isso
  • Quer um romance onde a found family e a comunidade são parte do arco emocional
  • Leu o primeiro livro e quer saber o que acontece com Nash — porque a resposta é muito melhor do que você esperava

Não é pra você que…

  • Prefere protagonistas femininas calorosas e imediatamente afetuosas
  • Se irrita com subplots de ação pesados em romance contemporâneo
  • Quer ver o casal se conhecendo de verdade em cenas de conversa — aqui o arco é mais interno do que dialogado
  • Não leu o primeiro livro e quer começar aqui — tecnicamente dá, mas o peso emocional vai ser infinitamente menor

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