O romance que Lucy Score guardou para o fim — e que justifica cada página dos dois anteriores.
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FICHA RÁPIDA
- Título original: Things We Left Behind
- Data de publicação: EUA: 2023 | Brasil: sem data oficial
- Tropes: Enemies to lovers, second chance, small town romance, legado familiar
- POV: Duplo (dual POV), primeira pessoa
- Temperatura: Quente — mas com uma tensão sexual que é genuinamente mais intensa do que nos livros anteriores
- Ritmo: O mais denso dos três — mais longo, mais pesado, mais recompensador
Tem uma coisa que a Lucy Score fez ao longo de dois livros inteiros que ela sabia muito bem o que estava fazendo: ela plantou Lucian em cada cena que ele apareceu como um homem que você ainda não entendia completamente, mas que era impossível ignorar.
Ele era o amigo poderoso. O que sabia de tudo antes de todo mundo. O que olhava para Sloane com um ódio calibrado demais para ser simplesmente ódio. E então você abre o terceiro livro e descobre. Que tem história. Uma história de 22 anos. Que tem uma infância inteira de peso carregado sozinho. E que o homem que falava com a bibliotecária com voz de veneno, na verdade ficava acordado esperando a luz do apartamento dela apagar antes de dormir.
Pronto. Estamos perdidas.
Sloane Walton acabou de perder o pai — Simon, o homem que era o coração moral da família. O que ela não sabia direito, por anos, é que Simon também foi a única figura paterna que Lucian Rollins conheceu: o adulto que abriu a porta, puxou a cadeira e ensinou xadrez a um menino que não tinha nada disso em casa.
O funeral os coloca no mesmo espaço de novo — eles já se esbarravam antes, já trocavam farpas nos livros anteriores, já eram esse ponto de tensão mal resolvida que a série foi construindo desde o primeiro capítulo. Mas agora Lucian volta pra Knockemout pra vender a casa da infância e a proximidade é diferente. É constante. E o ódio que os dois carregam um pelo outro tem essa qualidade específica do ódio que esconde outra coisa — calibrado demais, duradouro demais, pessoal demais para ser só ódio.
Por baixo de tudo: Sloane quer encontrar um marido e construir a família grande que sempre sonhou. Lucian acha que não merece nenhuma dessas coisas — não por falta de dinheiro ou poder, mas porque passou a vida inteira acreditando que era o tipo de homem que traz escuridão, não luz. E tem uma história de 22 anos de mal-entendido que os dois precisam finalmente olhar de frente — antes que Knockemout, a família Hugo e o caso de injustiça que Sloane teimosamente decidiu resolver, façam isso por eles.
Sloane é a personagem mais direta dos três livros, em termos de saber o que quer — ela quer um marido, quer filhos, quer dar continuidade ao legado do pai. Essa clareza sobre os próprios desejos poderia torná-la plana, mas Lucy Score usa isso com inteligência: Sloane é um espelho para Lucian entender o que ele está perdendo ao se sabotar.
O que a torna memorável não é complexidade de arco, mas sua presença: ela é afiada, engraçada, feroz quando defende os que ama, e tem uma coragem que ela mesma subestima. Quando Sloane decide que vai lutar por Mary Louise — a mulher presa injustamente cuja história a conecta à justiça que o pai dela tanto valorizou — você vê uma mulher que entende que legado não é herança passiva. É escolha ativa.
Lucian é o personagem mais complexo da série e um dos mais complexos que já li em romance contemporâneo nos últimos anos. Ele cresceu com um pai abusivo. Foi proteger a mãe e terminou preso. Saiu da cadeia mais duro, mais estratégico, e com uma crença profundamente internalizada de que pessoas como ele — que cresceram naquele tipo de casa, com aquele tipo de origem — não têm direito às coisas boas. Não ao amor. Não à família. Não a Sloane.
O que torna Lucian particularmente devastador é que ele é bom. A carreira inteira que construiu existe para proteger pessoas com quem o sistema falhou — é como se ele tivesse passado a vida adulta tentando consertar, de fora, o tipo de injustiça que destruiu a infância dele. E ainda assim, quando a questão é ele mesmo, a mesma compaixão simplesmente não existe. Ver esse homem aprender — devagar, contrariado, e com o tipo de resistência que só existe em pessoas que se protegeram de si mesmas por muito tempo — é a experiência central do livro.
Enemies to lovers com história de 22 anos é uma coisa diferente de enemies to lovers de primeiro capítulo. Aqui você tem dois adultos que já se conhecem profundamente, que já se magoaram de formas específicas e reais, e que precisam não apenas reconhecer o que sentem, mas entender por que passaram muito tempo fugindo disso.
O banter entre Lucian e Sloane é, sem dúvida, o melhor da série. Tem camadas. Tem veneno que esconde ternura. Tem uma linguagem própria que os dois desenvolveram ao longo de décadas de convivência forçada e que, quando você começa a decifrar, percebe o quanto eles sempre se enxergaram de verdade.
E tem uma cena em que ele fica acordado esperando a luz do quarto dela apagar. Essa cena não tem nada de explícito. É só um homem que não consegue dormir até saber que ela está segura. É pequeno demais para ser o momento mais devastador do livro. Mas é.
Esse é também um romance de segunda chance — e em três frentes ao mesmo tempo. Para o casal, é a chance de finalmente ser o que deveriam ter sido antes que a infância de ambos tornasse isso impossível. Para Sloane, é a chance de construir a família que sempre quis depois de anos acreditando que tinha perdido o timing. E para Lucian, é a chance de acreditar que merece uma segunda chance para si mesmo — com o homem que ele se tornou apesar de tudo, não por causa de nada.
Esse livro é sobre o que você carrega do passado que não pertence a você. Lucian passou 22 anos carregando o legado do pai — não o legado de quem o pai foi, mas o legado do que o pai o fez acreditar que ele era. A lição que ele aprende não é que o passado não importa. É que o passado não define o futuro a menos que você decida deixar — e que às vezes a única forma de deixar é finalmente olhar para o passado junto com alguém que também estava lá. Sloane tem as suas marcas dessa infância compartilhada, e Lucy Score usa isso com uma precisão cirúrgica.
Simon Walton — que você conhece através da memória dos outros, porque já morreu quando o livro começa — é um personagem presente o tempo todo. O tipo de pai que Lucian nunca teve e que, ao aceitar o jovem ao redor da mesa de jantar, mudou o que aquele menino acreditava ser possível. Esse fantasma gentil é o coração emocional do livro.
O que esse livro faz melhor que os anteriores: a química entre o casal (o banter tem uma qualidade diferente, mais afiada e mais íntima ao mesmo tempo), o arco interno de Lucian, e a resolução da trama criminal que se arrastou pelos três livros, que aqui finalmente se fecha de forma satisfatória.
O que é genuinamente criticável: o livro é longo. Muito longo. Há subtramas e personagens introduzidos ao longo da série que aparecem aqui sem ter espaço real para se desenvolver. E algumas sequências de ação que claramente existem para resolver a mitologia da família Hugo de uma forma que funciona narrativamente, mas que interrompe o que você realmente quer ler, que é mais Lucian e Sloane.
Por fim, há um detalhe do arco de Lucian — ligado à sua resistência em aceitar a possibilidade de família — que o livro introduz com peso e resolve com uma rapidez que não faz jus ao que foi construído. Pequena ressalva, mas vale a nota.
Tem um momento em que Lucian diz para Sloane que se lembra de cada segundo deles. E você acredita, porque Lucy Score passou 600 páginas mostrando um homem que nunca esqueceu nada — que só aprendeu, muito tarde e com muito custo, que lembrar não é o mesmo que viver.
Quando você fechar esse livro, vai querer voltar para o primeiro, para ver o Lucian nas margens, nas cenas em que ele está de passagem, sabendo agora o que ele estava pensando enquanto estava lá. Na minha opinião, é o melhor dos três livros. É mais exigente, mas entrega mais. Lucy Score construiu uma série onde o terceiro livro ressignifica tudo que veio antes. Isso não é fácil. Esse livro merece todo o amor que tem recebido — e merecia mais hype do que tem.
É pra você que…
- Quer enemies to lovers com história real e peso emocional verdadeiro
- Curte heróis com traumas de infância que não são romantizados, mas que são tratados com seriedade
- Gosta de banter afiado com camadas — onde as farpas escondem ternura
- Aprecia quando o terceiro livro de uma série fecha a trilogia com um impacto que os anteriores não tinham
- Leu os dois primeiros e chegou aqui com a expectativa no teto — ela está justificada
Não é pra você que…
- Não tem paciência para livros longos com subtramas densas
- Se irrita com ação e crime em meio ao romance — aqui o subplot Hugo finalmente fecha, mas fecha de forma pesada
- Está começando pela série aqui — vai funcionar como standalone, mas vai perder metade do impacto emocional
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