Uma cidadezinha fictícia gostosa o bastante pra você cogitar procurar passagem pra Maryland — mesmo sabendo que ela não existe
Este post contém links de afiliados da Amazon. Se você comprar por aqui, ganho uma comissão pequena — sem custo extra pra você. Isso ajuda a manter o Entre Tropes de pé e eu continuo recomendando só o que realmente vale a pena.
B.K. Borison escreve o tipo de romance que faz você fechar o livro, olhar ao redor e sentir uma saudade estranha de um lugar que nunca existiu. A série Lovelight é a prova mais clara disso: quatro romances contemporâneos ambientados numa cidadezinha fictícia de Maryland, cada um seguindo um casal diferente dentro do mesmo grupo de amigos — e cada um fazendo você se apaixonar um pouco mais pela comunidade inteira, não só pelo casal da vez.
São livros de comfort read raiz: sem vilão de verdade, sem trauma pesado demais pra carregar, com humor genuíno e aquele tipo de found family que faz você querer se mudar pra lá. Vem comigo que eu te explico tudo antes de você entrar.
Um aviso sobre o estilo de leitura: a escrita de Borison se apoia bastante em monólogo interno — reflexões longas, às vezes interrompendo o próprio diálogo entre uma fala e outra. É mais evidente no primeiro livro, mas atravessa a série inteira. Pra quem gosta de mergulhar de cabeça nos pensamentos da narradora, isso é parte do encanto. Pra quem prefere ritmo mais ágil, com menos pausa reflexiva entre as falas, pode ser o maior obstáculo pra entrar no universo dela. Não é defeito nem qualidade — é só bom saber antes de decidir por onde começar.
O coração de tudo: Inglewild, Maryland
Antes de falar dos livros, preciso falar do lugar. Inglewild é uma daquelas cidades pequenas de romance onde todo mundo conhece todo mundo, onde existe uma rede de fofoca informal — o famoso “phone tree” da cidade — que sabe da sua vida antes de você mesma, e onde o centro de tudo é a Fazenda Lovelight: a fazenda de árvores de Natal de Stella, com Beckett cuidando da terra e Layla comandando a padaria.
A fazenda não é só cenário. É o motivo pelo qual esse grupo de amigos se conheceu, é a trama de fundo que sustenta o primeiro livro, e é o espaço físico onde os personagens de um livro vão aparecendo nos bastidores dos outros — comprando as delícias da padaria da Layla, ajudando a resolver uma crise de última hora, aparecendo num jantar de família que não é bem uma família de sangue.
Outro detalhe que dá ainda mais unidade à série: a própria B.K. Borison confirmou que cada livro se passa numa estação diferente do ano. Um Namorado de Natal é inverno, Um Amor de Cidade Pequena é primavera, Um Namoro de Mentirinha é verão, e Os Opostos se Atraem é outono. Ler em ordem de publicação também significa passear pelo calendário inteiro de Inglewild — uma estação, um casal, por vez.

Livro 1: Um Namorado de Natal
Lovelight Farms | EUA: 2021 | Brasil: 2023
Casal: Stella Bloom e Luka Peters
Tropes: Friends to lovers, fake dating, small town, found family
Stella comprou a fazenda de árvores de Natal dos sonhos há dois anos e está afundando em dívidas, que esconde de todo mundo. Pra conseguir a atenção (e o prêmio) de uma influenciadora de viagens, ela mente no formulário de inscrição de um concurso e diz que administra o lugar com o namorado. Só tem um problema: ela é solteira. A solução óbvia é convencer Luka, seu melhor amigo há quase uma década, a fingir namorar com ela por uma semana.
Foi meu primeiro contato com a escrita da B.K. Borison, e não existe jeito melhor de começar. Friends to lovers do jeito que funciona de verdade: dois amigos de longa data que se amam demais, mas vivem com medo de cruzar a linha e destruir o que eles têm. O fake dating não é um artifício vazio, é só o empurrão que faltava pra alguma coisa que já estava óbvia pra todo mundo ao redor, menos pros dois. Luka é o tipo de herói paciente que a gente lê e imediatamente quer pra si: presente, sem pressa, sem drama desnecessário. Tem o dark moment de terceiro ato que praticamente todo romance contemporâneo carrega, mas aqui ele se resolve com uma maturidade que nem sempre vejo no gênero: sem grande gesto público, só comunicação de verdade entre duas pessoas adultas.

Livro 2: Um Amor de Cidade Pequena
In the Weeds | EUA: 2022 | Brasil: 2024
Casal: Beckett Porter e Evelyn “Evie” St. James
Tropes: Grumpy x sunshine, forced proximity, small town, found family
Beckett é o grumpy da Fazenda Lovelight, sensível a barulho e multidão, que carrega a família nas costas desde adolescente depois que o pai se machucou e não pôde mais trabalhar. Evelyn é influenciadora de viagem com mais de um milhão de seguidores, cansada de um trabalho que perdeu o sentido. Os dois se conhecem num bar quase vazio no Maine, passam duas noites juntos sem trocar sobrenome, e se separam sem despedida. Meses depois, ela aparece em Inglewild pra avaliar a fazenda pra um concurso — e descobre, horrorizada, que o affair de uma noite é o fazendeiro-chefe do lugar que ela precisa julgar com imparcialidade.
Esse é a Borison no seu melhor: grumpy com camadas reais — o silêncio de Beckett não é personalidade de capa, tem raiz emocional concreta — e uma sunshine que não é ingênua, só perdida. A falta de comunicação entre os dois, normalmente um dos maiores vilões do gênero, aqui funciona porque nasce exatamente de quem cada um é, não de um mal-entendido bobo forçado pra esticar o livro. Beckett a tira da correria digital sem tentar mudá-la; ela o tira da zona de conforto sem tentar consertá-lo. É mais maduro, mais introspectivo que o primeiro e fica ainda mais difícil de largar.

Livro 3: Um Namoro de Mentirinha
Mixed Signals | EUA: 2022 | Brasil: 2024
Casal: Layla Dupree e Caleb Alvarez
Tropes: Hiding in plain sight, dating pact, small town, found family
Layla é a confeiteira caótica e cheia de energia da Fazenda Lovelight, dona de um histórico de encontros desastrosos. Caleb é aquele cliente fiel que aparece toda segunda, quarta e sexta pra comprar um croissant, porque guarda uma paixão silenciosa há anos. Quando ele propõe um mês de namoro-treino, com feedback honesto dos dois lados, o que começa como experimento vira exatamente o que a premissa sugere que ia virar.
Confesso que esse foi o único dos quatro que me deixou um pouco frustrada. Depois de dois livros tão bons, cheguei com expectativa alta, e a atração instantânea de Layla por alguém que ela já conhecia há anos não me convenceu totalmente. Só funcionou porque Caleb já estava apaixonado havia tempos, o que segura a lógica. O maior ponto fraco pra mim foi a separação de terceiro ato: surge rápido demais, sem a construção que o resto do livro tinha, e se resolve com a mesma pressa. Ainda assim, Caleb é um herói tão bem escrito — leal, paciente, dos melhores da autora — e a comunidade de Inglewild continua tão gostosa, que o livro se sustenta mesmo com esse tropeço.

Livro 4: Os Opostos se Atraem
Business Casual | EUA: 2024 | Brasil: 2025
Casal: Nova Porter e Charlie Milford
Tropes: Opostos que se atraem, one night stand to relationship, small town, found family
Nova, irmã mais nova de Beckett, é tatuadora prestes a abrir o próprio estúdio. Fechada emocionalmente por escolha e focada demais na carreira pra deixar espaço pra romance. Charlie, o meio-irmão de Stella, é banqueiro em Nova York, do tipo sorridente e certinho demais pra ser o par de alguém como Nova — até ela mesma propor uma noite sem compromisso só pra tirar a atração da cabeça de uma vez. Não funciona. Charlie fica na cidade administrando a Fazenda Lovelight temporariamente e Nova não consegue evitá-lo.
Depois de uma leve frustração com o terceiro livro, eu tinha baixado as expectativas, mas não precisava. Esse é, sem dúvida, o melhor da série pra mim, o tipo de livro que você lê torcendo e rindo como se estivesse acompanhando dois amigos de perto. A construção do relacionamento não tem pressa nenhuma: momentos engraçados, tensos e genuinamente emocionantes, dá pra sentir cada dúvida e cada passo que os dois dão. E sem aquele término forçado de terceiro ato que me tirou do sério no livro anterior. Fecha a série com chave de ouro.
Os fios que conectam tudo
Uma das grandes alegrias de ler Lovelight na ordem é ver como cada protagonista de um livro continua presente na vida dos outros. Stella e Luka aparecem administrando a fazenda enquanto Beckett e Layla, coadjuvantes de peso no primeiro livro, ganham suas próprias histórias nos volumes seguintes. Charlie, o meio-irmão banqueiro de Stella, é mencionado desde o início da série antes de finalmente protagonizar o desfecho. E o famoso phone tree de Inglewild atravessa os quatro livros como um personagem próprio — hora ajudando, hora complicando a vida de quem está se apaixonando.
Vale a pena ler a série Lovelight em ordem?
Tecnicamente, cada romance é um standalone funciona sozinho: você entende a história de Beckett e Evie sem ter lido a de Stella e Luka. Mas a experiência muda muito quando você lê em sequência. Reencontrar os casais anteriores já estabelecidos, felizes, aparecendo em segundo plano na vida do próximo protagonista, é exatamente o tipo de alegria pequena que faz um universo literário valer a pena. E Charlie, que passa os primeiros três livros como nome mencionado de vez em quando, ganha um peso completamente diferente quando você finalmente chega no livro dele sabendo de onde ele veio.
Minha recomendação: leia na ordem de publicação. Cada livro deixa a cidade um pouco mais viva, um pouco mais sua.
Para quem é a série Lovelight?
- Quem procura comfort read raiz, sem vilão e sem trauma pesado demais pra digerir
- Fãs de found family que querem ver uma comunidade inteira funcionando como personagem
- Quem gosta de tropes clássicos sem reinventar a roda. Aqui tem friends to lovers, grumpy x sunshine, fake dating e opposites attract bem executados.
- Quem já ama Abby Jimenez ou Sarah Adams e está procurando a próxima obsessão de cidade pequena.
Inglewild não existe em lugar nenhum além dessas páginas, e ainda assim é um dos lugares mais reais que eu já visitei em romance. Terminei os quatro livros com vontade de ficar mais um pouco e é exatamente essa sensação que eu espero que você também sinta.
Você também vai gostar:
→ Quer começar pela primeira história do universo, com todos os detalhes? A resenha completa está aqui: Resenha: Um Namorado de Natal, de B.K. Borison
→ Friends to lovers, grumpy x sunshine, opposites attract — se você caiu de cabeça nesse universo, o guia dos tropes mais populares do romance tem tudo que você precisa saber.
→ Também ama uma série onde a cidade é quase um personagem? A série Parte do Seu Mundo da Abby Jimenez faz algo parecido com Wakan.
→ Quer romance de cidade pequena com um pouco mais de intensidade e uma trama policial que acompanha o romance? Leia o guia completo da Série Knockemout, de Lucy Score.
→ Não conhece termos como slow burn, dark moment, standalone? Não precisa mais fingir que sabe, esse glossário resolve: Dicionário do Romance
Paula é formada em Jornalismo, o que explica por que ela escreve mil palavras sobre um trope só. Lê romance quase exclusivamente e não pretende mudar isso — os outros gêneros que lutem. É fundadora do Entre Tropes e divide a casa com dois filhos pequenos, quatro gatos, um cachorro e uma quantidade de livros que ela prefere não estimar em voz alta.



