A filha do técnico. O capitão do time rival. Um estágio em jogo. E um fake dating que era péssima ideia desde o começo
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FICHA RÁPIDA
- Título original: The Risk
- Série: Briar U, livro 2 (spin-off de Off-Campus)
- Data de publicação: EUA: maio 2019 | Brasil: 2019
- Tropes: forbidden romance, rivals to lovers, fake dating
- POV: Duplo (dual POV), em primeira pessoa
- Temperatura: Quente — cenas explícitas presentes
- Faixa etária dos protagonistas: Jovens adultos universitários
- Ambiente: Campus universitário, rivalidade entre equipes de hóquei
- Ritmo: Médio-rápido — tensão constante, banter de alta qualidade
- Avisos de conteúdo: luto, dependência química, sexismo no ambiente de trabalho e perda gestacional
Brenna Jensen tem uma reputação. Bad girl, não liga para regras, diz o que pensa sobre tudo e todo mundo, sem pedir licença. A reputação não é inteiramente falsa — mas é um escudo, e Elle Kennedy deixa isso claro desde o começo. Por baixo da persona de quem não tem nada a perder está uma garota que perdeu coisas importantes e que decidiu que nunca mais ia se colocar numa posição de ser surpreendida novamente. O batom vermelho, marca registrada dela, é essa armadura em forma de cosmético: Brenna passa e se sente invencível.
Brenna é filha do técnico da equipe de hóquei da Briar. Jake Connelly é o capitão de Harvard, o time rival. Isso já seria suficiente para tornar qualquer envolvimento problemático. O que torna ainda mais complicado é que Jake é exatamente o tipo de pessoa que Brenna não deveria achar atraente: arrogante de um jeito que o livro faz questão de mostrar, inteligente de um jeito que exige que você esteja presente na conversa, e com uma disposição irritante de ver através das camadas de defesa que ela passou anos construindo.
Mas o Jake é mais do que a pose. O capitão quer o título que Harvard não ganha desde 1989 e acha que a vida amorosa de qualquer um é distração. É disciplinado, líder nato e seu egoísmo é considerado, pelo técnico dele, uma virtude. O dual POV funciona muito bem aqui, porque é pelos olhos do Jake que a gente descobre o que ele não diz em voz alta: a culpa por ter se metido onde não devia, o “quero que ela fique” que ele tenta calar, o medo de falhar numa coisa que não tem placar. Ele não é frio, só foi treinado para medir tudo em números, e relacionamento não cabe em estatística. Tem também os detalhes que humanizam o personagem: o garoto que passa os verões mergulhando atrás de mariscos com o avô para pagar a faculdade e que usa no pulso uma pulseira da “sorte rosa e roxa (confie em mim: ela importa mais do que parece). Quando o relacionamento fica sério de verdade, o medo dele aparece, e o livro não deixa isso passar em branco.
O fake dating nasce de uma necessidade prática: Brenna quer um estágio cobiçado numa emissora esportiva, mas o responsável pela vaga é o tipo de homem que faz você questionar se o mercado de trabalho tem salvação — machista, misógino, e subitamente muito mais receptivo quando descobre que o namorado de Brenna é justamente o jogador de hóquei que ele idolatra. Jake topa fingir no jantar na casa do executivo, mas cobra um quid pro quo: em troca, Brenna precisa sair com ele de verdade, uma vez. O acordo é desequilibrado desde o começo. E os dois sabem disso.
Vale falar do que está por trás do estágio, porque é um dos temas mais fortes do livro: machismo e misoginia, sem rodeios. Ed Mulder, o executivo da emissora, é o preconceito em forma de gente. Na entrevista, erra o nome de Brenna, pergunta por que uma garota bonita quer trabalhar atrás das câmeras e ignora tudo o que ela sabe de hóquei. No jantar, separa as mulheres dos homens e trata o conhecimento dela como gracinha. Ele chega a dizer que a jornalista Georgia Barnes, profissional da própria emissora, não deveria estar onde está, e o recado vale para Brenna: aquele não é o lugar dela. Elle Kennedy não suaviza nem romantiza: é machismo, é misoginia, e é difícil de ler justamente porque é reconhecível. É isso que impede o fake dating de ser só um truque de enredo e o transforma na resposta de alguém que tenta entrar por uma porta que insistem em manter fechada. Georgia, a jornalista que Brenna admira, funciona como um contraponto bem-vindo.
O que torna The Risk especialmente interessante dentro da série é a dinâmica de poder mais equilibrada entre os protagonistas. Brenna não é menos capaz que Jake em nenhuma dimensão — ela é mais esperta que ele em algumas situações, ele é mais estável do que ela em outras. O romance que nasce dessa negociação constante tem uma energia diferente dos livros anteriores, mais de igual para igual, e isso é refrescante. A rivalidade aqui é de lealdade, não de antipatia pessoal: cada um defende o próprio time, e boa parte do conflito nasce de orgulho e mal-entendido, não de maldade. É por isso que eu chamo de rivals to lovers: eles são rivais por circunstância.
O pai de Brenna — o técnico Jensen, que as leitoras de Amores Improváveis (Off-Campus) já conhecem de passagem — ganha muito mais dimensão aqui, e as cenas entre ele e Brenna são das mais emocionalmente honestas da série Briar U. Elle Kennedy não simplifica a relação: ele a ama, quer protegê-la, e eles têm formas completamente diferentes de expressar e receber afeto. É uma relação pai-filha escrita com o tipo de ambivalência afetiva que parece verdadeira. A rivalidade entre os dois técnicos, aliás, é mais antiga e mais pessoal do que parece, e isso pesa na vida dos filhos e jogadores.
Fora do casal, o elenco ajuda. Summer e Fitz, os protagonistas do primeiro livro (The Chase), aparecem como o casal feliz que Brenna acha impossível para ela, e o romance caótico entre Mike e a caloura Rupi é o alívio cômico da vez. Quem acompanha a série também já vai reconhecer o Hunter, que ganha o livro 3 (The Play).
Elle Kennedy costuma desenvolver muito bem seus personagens, e por isso o que me incomodou chamou a atenção. No começo do livro, Jake decide sozinho que um relacionamento dela precisa acabar e age para isso, como se tivesse esse direito. O livro não ignora o episódio: Brenna o enfrenta, e Jake sente culpa. Mas o desconforto passa rápido, e o peso real do que ele fez nunca chega a ser cobrado de verdade. É um comportamento que caberia num arco de crescimento bem construído (e o arco do Jake existe), mas faltou a autora olhar de frente para esse primeiro erro com a mesma seriedade com que olha para os outros. Elle geralmente trata seus personagens com mais cuidado do que isso.
Ainda assim, The Risk é o livro de Briar U com o forbidden romance mais bem justificado e com a tensão mais constante. É também onde o banter mais se aproxima da qualidade da série anterior. Brenna e Jake vão te irritar, te prender e te conquistar, nessa ordem. Só leia.
Dá pra ler The Risk sem ter lido os anteriores?
Dá. Cada livro de Briar U tem um casal próprio, e The Risk se sustenta sozinho. Quem já leu Off-Campus e The Chase reconhece participações e referências, mas nada disso atrapalha quem chega agora.
É pra você que…
- Ama forbidden romance com stakes reais — filha do técnico x capitão rival é deliciosamente complicado
- Quer fake dating que se transforma em algo mais de forma que você acredita
- Aprecia protagonistas femininas com armadura real e razões reais para tê-la
- Gosta de banter de alta qualidade, com personagens que se respeitam mesmo quando discordam
- Curte uma protagonista que enfrenta o machismo do esporte sem perder o humor
Não é pra você que…
- É sensível a comentários problemáticos do herói que o livro não endereça completamente
- Prefere romances sem o componente de rivalidade entre equipes — aqui isso é central
- Quer um herói mais claramente gentil desde o começo — Jake tem arestas
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Paula é formada em Jornalismo, o que explica por que ela escreve mil palavras sobre um trope só. Lê romance quase exclusivamente e não pretende mudar isso — os outros gêneros que lutem. É fundadora do Entre Tropes e divide a casa com dois filhos pequenos, quatro gatos, um cachorro e uma quantidade de livros que ela prefere não estimar em voz alta.



