Resenha: The Play – Os Desencontros de Demi e Hunter, de Elle Kennedy

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O novo capitão decidiu que vai ficar celibatário pela equipe. Demi Davis não leu o memorando.

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FICHA RÁPIDA

  • Título original: The Play
  • Data de publicação: EUA: 2019 | Brasil: 2020
  • Tropes: friends to lovers, proximidade forçada
  • POV: Duplo (dual POV)
  • Temperatura: Quente — cenas explícitas presentes
  • Faixa etária dos protagonistas: Jovens adultos universitários
  • Ambiente: Campus universitário, ambiente de hóquei
  • Ritmo: Médio — mais leve que os anteriores da série, com humor mais alto

Você já fez uma promessa tão solene que o universo entendeu como desafio pessoal? Hunter fez. Com plano, convicção e regra de temporada. A promessa durou até a primeira aula de psicologia.

Pra quem chega agora, o Hunter Davenport é um jogador de hóquei de Briar: engraçado, charmoso, com fama de galinha, o tipo de cara que parecia ser só isso. Quem acompanha a série, o conhece como o protegido de Dean Di Laurentis (O Jogo). Um personagem ainda se definindo, um pouco à sombra do predecessor, mas que merecia muito mais do que o papel coadjuvante que teve até aqui. The Play, o terceiro livro da série Briar U, finalmente entrega o que as leitoras vinham pedindo: a história dele.

A premissa tem aquela qualidade de ideia que parece ótima até o momento em que deixa de ser. Na temporada anterior, uma confusão envolvendo uma mulher custou o campeonato ao time. Agora o Hunter é o novo capitão e decreta celibato até o fim da temporada: hóquei e faculdade antes de tudo, inclusive de mulheres. Determinação de ferro. Plano sólido. E então a Demi Davis aparece.

A Demi é pré-med, namora desde o ensino fundamental e tem um pai neurocirurgião que já escolheu o futuro dela. É esforçada, inteligente, e a vida inteira está organizada numa direção só. Isso deixa pouco espaço pra pergunta incômoda: é isso mesmo que eu quero? Ela também tem pontos cegos sérios: não enxerga o que o namorado realmente é e, quando alguém tenta abrir os olhos dela, reage na defensiva. Essa dose de egocentrismo cobra um preço alto de quem ela ama.

O trabalho em dupla da aula de psicologia é a proximidade forçada do livro. Ela faz a psicóloga e ele se inspira no próprio pai para inventar um paciente: um narcisista casado, com nome, sobrenome e zero senso de culpa. O que começa como parceria inconveniente vira, sessão a sessão, a amizade mais honesta que os dois já tiveram, com estudo, academia e uma casa cheia de gente. O que o livro faz de melhor é construir a conexão antes de qualquer coisa romântica ou física. A amizade parece real porque a Elle Kennedy investe tempo nela. O banter tem a qualidade de dois personagens genuinamente engraçados um para o outro, não só para o leitor.

O tema emocional do livro é o peso dos pais. Por baixo da confiança de capitão, o Hunter esconde uma sensação de que nunca vai ser suficiente para as expectativas que colocam nele, além de um medo ainda mais específico: o de virar o pai. O voto de celibato é menos teimosia de atleta e mais uma tentativa de provar pra si mesmo que ele é outra pessoa. Ele se pune por coisas que nem fez, e a gente demora a perceber o quanto. Essa insegurança, que ele esconde tão bem, é o que torna o personagem mais complexo do que parecia.

A Demi tem os próprios questionamentos: sobre se colocar primeiro, sobre querer coisas, sobre admitir que as quer quando o pai já decidiu o que ela deveria querer. Ela molda a vida pra ser o que o pai espera, e ele molda a dele pra não ser o que o pai foi. O romance que nasce entre eles é sobre dois personagens que precisam aprender a pedir o que querem, e a ironia dessa simetria é o que dá corpo a um livro que parece só divertido.

Agora, os poréns. O primeiro é leve: a Demi demora pra enxergar o que está debaixo do nariz dela — e olha que ela quer ser psicóloga. Em alguns momentos isso irrita e testa a paciência. O segundo pesa bem mais. O livro mais leve da série tem o desfecho mais pesado, e a guinada de tom é brusca. Há uma cena envolvendo saúde mental, um dos temas mais delicados que um livro pode tocar, que chega sem aviso e sem nenhuma preparação. Eu não vi chegar. E também não acho que ela seja bem endereçada: parece criada mais para dar um momento à trama da Demi do que para tratar o assunto com o cuidado que ele exige. Não considero que o livro trate isso com o devido cuidado.

Apesar disso, The Play é o mais leve e mais divertido da série Briar U — e isso é intencional. Depois da tensão mais pesada de The Risk, a Elle alivia o tom sem perder profundidade. Engraçado de verdade é raro. Engraçado e emocionante ao mesmo tempo? Isso é Elle Kennedy. O Hunter queria uma temporada sem distração e ganhou o que nenhum plano previa. A gente agradece.

É para você que…

  • Quer um romance que faça você rir de verdade, não só sorrir
  • Gosta de slow burn construído em amizade genuína antes de qualquer coisa
  • Curte protagonista masculino com camadas — Hunter é muito mais do que o galinha engraçado que parecia ser
  • Ama quando personagens femininos são imperfeitos de um jeito que faz sentido, não só de enfeite
  • Quer um romance leve que ainda tenha algo real a dizer sobre responsabilidade afetiva

Não é para você que…

  • Prefere que o romance ocupe 100% do espaço — aqui os personagens têm vida fora do casal, e isso toma páginas
  • Se irrita com protagonista feminina que demora a enxergar o que está na cara
  • Temas como saúde mental em crise e ideação suicida te afetam demais durante a leitura.

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