Resenha: Nas Alturas, de Liz Tomforde

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O bad boy do hockey, a comissária de bordo e a máscara que os dois usam

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FICHA RÁPIDA

  • Título original: Mile High
  • Data de publicação: EUA: 2024 | Brasil: 2026
  • Tropes: enemies to lovers, forced proximity, forbidden romance, he falls first, found family
  • POV: Duplo (dual POV), primeira pessoa
  • Temperatura: Quente — tem tensão sexual presente, cenas detalhes explícitos.
  • Faixa etária dos protagonistas: Adultos
  • Ambiente: Chicago, ambiente esportivo
  • Ritmo: Slow burn consistente, tensão construída aos poucos, com humor.

Quantas versões de você existem hoje? A do trabalho, a da casa da família, a que só aparece quando ninguém está olhando. Agora imagine gastar anos de energia para garantir que elas nunca se encontrem. Nas Alturas começa exatamente aí, com duas pessoas que construíram uma imagem tão boa de si mesmas que quase ninguém pensa em procurar o que existe por trás dela.

Evan Zanders, o bad boy do Chicago Raptors, embarca no jato do time ao lado do melhor amigo e conhece a nova tripulação, onde está Stevie Shay, que já aprendeu a lição e jurou nunca mais se envolver com um atleta cheio de si. Zanders percebe na hora que ela não o trata como celebridade e decide fazê-la lembrar para quem trabalha. Ela não cede. Daí em diante é uma temporada de voos, cutucadas e uma implicância que nenhum dos dois sabe explicar.

Stevie é a comissária atrevida: rápida na resposta, sem paciência para ego de atleta, com uma ironia que funciona como escudo. O que o uniforme não esconde é o que ela carrega por dentro: uma mãe que faz comentários desagradáveis sobre o corpo e a aparência dela como quem comenta o clima, um ex-namorado que a fez sentir que era uma opção nunca a escolha, e a certeza treinada de que quem se envolve com atleta se machuca.

Quando não está voando, Stevie faz voluntariado num abrigo de cães idosos e mora com o irmão gêmeo, Ryan. E aqui vemos a insegurança menos óbvia, que ninguém criou de propósito: Ryan é um jogador de basquete famoso, e a vida inteira tinha gente que se aproximava dela para chegar nele. Tanto que, no trabalho novo, ela esconde que é irmã dele, para separar quem realmente se interessa por ela de quem só quer a ponte. O que faz Stevie funcionar como personagem é a distância entre a mulher do voo, que tem resposta para tudo, e a que fecha a porta do quarto e quer, acima de tudo, ser a primeira escolha de alguém. Vai demorar para ela entender que a primeira pessoa que precisa escolhê-la é ela mesma.

Zanders é o bad boy que a imprensa adora: briga no gelo, tem fama de conquistador, dá entrevistas que ninguém esquece. Só que o personagem foi montado, e quem está por baixo é outra pessoa: alguém que cresceu entre o abandono da mãe e a ausência do pai, que faz terapia há dez anos, que ama pouca gente (os melhores amigos, que viraram família, e a irmã) e tem um medo bem específico: de que as pessoas adorem o personagem e recusem o homem.

“Dói muito menos ser odiado quando não estou sendo sincero do que não ser amado por ser quem sou”.

O que une esses dois é um enemies to lovers na versão mais divertida, com mais implicância do que ódio. Tem forced proximity no avião e na vizinhança, e tem, principalmente, o forbidden romance, porque Stevie é funcionária do time e não pode socializar com os jogadores. Além disso, segundo o agente dele, o contrato de Zanders, depende de ele manter a imagem do bad boy mulherengo e arrogante que não se importa com mais nada além de si mesmo. Como os dois narram em primeira pessoa, a gente sabe o que cada um sente antes de eles saberem, e esse atraso é uma tortura deliciosa: a tensão antes de o romance acontecer é uma das melhores partes do livro.

Debaixo da implicância, o livro fala de aparências e do esforço que a gente faz para sustentá-las. Os dois escondem o trauma atrás de uma imagem, e o romance só avança quando eles permitem que o outro os veja de verdade. O que me agradou foi o cuidado com isso: o trauma de Zanders não é curado pelo amor da protagonista, é trabalhado em terapia, com tempo e esforço, e o amor entra como apoio e não como atalho. Com Stevie, o livro mostra o quanto da insegurança com o corpo vem de fora antes de virar voz interna. Em um dia ruim com o próprio corpo, Zanders diz a ela:

“Você não tem que amar seu corpo todo dia, seria uma expectativa meio irreal, mas eu estarei aqui para amá-lo quando você não conseguir”.

É um jeito bonito de mostrar acolhimento sem pedir que a pessoa finja estar bem.

Os personagens também têm diversidade: Stevie é filha de pai negro e mãe branca do Tennessee e tem um corpo curvilíneo que foge do padrão, e Zanders é um protagonista negro de pele escura. Para um romance divertido, tem muita coisa importante em jogo.

Justamente por isso, a reta final era o que eu mais temia, e o que mais gostei de ver bem resolvido. Se você também é do time que torce o nariz para término no terceiro ato como dark moment, relaxa: aqui ele tem função. A autora não o usa para criar uma reviravolta vazia. Os dois já vinham se ajudando, cada um mostrando ao outro o que é ser escolhido e amado, mas é quando precisam encarar as suas questões por conta própria que as máscaras caem de verdade. O dark moment permite que eles se tornem pessoas inteiras, e não duas metades que se escoram. Sem ele, o crescimento dos dois ficaria incompleto.

Dito isso, gostei muito do livro, e o que vem agora é crítica de quem gostou. A autora volta a explicar coisas que já tinham sido ditas e a repetir pensamentos dos personagens. A ideia de que Zanders prefere ser detestado pelo personagem criado a ser rejeitado pela pessoa que realmente é aparece várias vezes. As inseguranças da Stevie e o lembrete de que ela é uma mulher curvilínea, fora do padrão, volta tantas vezes que a mensagem importante de positividade corporal pode cansar. O mesmo vale para os olhos cor de mel dele e os verde-azulados dela.

O que mais me incomodou, porém, foram as ambiguidades dos personagens, a começar pelo Zanders. O livro quer que a gente veja o bad boy como uma encenação criada pelo agente, mas no começo ele é arrogante com a Stevie de um jeito bem pessoal (decide que vai lembrá-la, a cada voo, de quem trabalha para quem) e mantém uma lista das mulheres de cada cidade por onde passa. Fachada não costuma ser tão pessoal, e o que vemos no começo briga com o homem que descobrimos depois. A premissa de que a carreira dele depende da imagem também é forçada: depois de sete anos na liga de hockey profissional e quase dez de terapia, um adulto saberia que o que ele faz no gelo também conta, e que não é só a imagem de bad boy que segura o contrato dele.

Tem ainda a questão do dinheiro. Para alguém que não perdoa a mãe por trocar a família por um homem mais rico, Zanders faz questão de lembrar o tempo todo de quão rico ele é: terno Tom Ford, calça feita sob medida, relógio caro, roupas de marca, e a ideia de que ele não liga para dinheiro justamente porque tem de sobra. Ele faz coisas boas com isso: adota uma cachorra de abrigo, faz doações, tem a fundação que cuida da saúde mental de jovens de baixa renda.

Mas o contraste com a Stevie é martelado sem parar. Ele adora o corpo dela, mas julga o que ela veste: acha o moletom surrado e entra no brechó de braços tensos, com medo de encostar em qualquer coisa. E não entende a escolha: quando descobre que ela compra roupa de segunda mão, pergunta se o time paga tão pouco e se oferece para resolver, como se brechó só pudesse ser falta de opção. Só depois passa a ver esse gosto como parte de quem ela é. Pode ser uma forma de reforçar o opposites attract, mas é insistente e ambíguo demais.

Com a Stevie acontece algo parecido: o que ela diz sentir e o que ela faz nem sempre combinam. Ela sofre com o próprio corpo e com o olhar dos outros, mas, no dia a dia, se importa pouco com a aparência: diz várias vezes que está há dias com o cabelo sem lavar e sai de casa com uma mancha de mostarda no rosto, sabendo que ela está ali. É um descuido que combina mal com quem se preocupa tanto com o que os outros veem. São detalhes que complicam a construção dos dois e que me chamaram a atenção mais de uma vez. Nada disso derruba o livro, mas é bom saber antes de entrar.

Nas Alturas é um livro sobre o que acontece quando alguém para de olhar a máscara e pergunta quem está atrás dela. E sobre a coragem de responder a essa pergunta, que dá trabalho e pede tempo. Quando você terminar esse livro, vai pensar em alguém que só conhece a sua melhor versão. Mostre as outras.

É pra você que…

  • gosta de enemies to lovers com mais implicância do que ódio
  • quer um bad boy de coração mole que faz terapia
  • curte dual POV, humor e muita tensão antes da primeira cena hot
  • prefere dark moment com função a reviravolta vazia

Não é pra você que…

  • não tolera repetição de pensamentos e descrições
  • não aguenta protagonista arrogante no começo, mesmo que ele mude depois
  • se incomoda com personagens cheios de contradições
  • não gosta de término no terceiro ato, mesmo quando ele tem funçã

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