Resenha: Rei da Ira, de Ana Huang

rei da ira resenha

Chantagem, casamento arranjado e um protagonista que não sabe perder — no livro que abre a série Reis do Pecado

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FICHA RÁPIDA

  • Título original: King of Wrath
  • Data de publicação: EUA: 2022 | Brasil: 2023
  • Tropes: casamento arranjado, chantagem, MMC possessivo, opostos que se atraem, he falls first
  • POV: Duplo (dual POV), em primeira pessoa
  • Temperatura: Quente — cenas explícitas, sem portas fechadas
  • Faixa etária dos protagonistas: Adultos
  • Ambiente: Nova York, alta sociedade
  • Ritmo: Começo lento, ritmo acelera a partir de ~30% do livro

Você já se apaixonou por alguém que estava tentando destruir sua família? Não no sentido figurado. No sentido literal, contratual, com advogado envolvido: Dante é obrigado a aceitar um noivado com Vivian depois de ser chantageado pelo pai dela — e passa metade do livro trabalhando em segredo para neutralizar a chantagem e destruir a empresa do futuro sogro. Vivian não sabe disso. Nós sabemos, e ainda assim torcemos pelos dois. Essa é a primeira coisa que Rei da Ira acerta: ele não pede que você acredite que esse casal vai dar certo apesar do que está em jogo, mas por causa disso.

Dante Russo tem 36 anos e é CEO do Russo Group, um conglomerado de bens de luxo. Herdou de uma família de fortuna antiga o hábito de nunca perder o controle de nada — nem da própria empresa, nem da própria casa, nem da própria raiva. Quando o pai de Vivian ameaça expor uma indiscrição do irmão dele a um chefe de máfia, Dante não tem escolha: aceita o casamento arranjado, e paralelamente monta um plano para destruir a Lau Jewels assim que se livrar da chantagem. Vivian, nesse cálculo, não é parte nenhuma do plano — é só o preço a pagar até ele conseguir executá-lo. O problema é que ela se recusa a ficar no papel de obstáculo temporário. De repente, Dante se dá conta de que tem dois projetos paralelos: de um lado a vingança e do outro, o desejo de ficar com a mulher que só devia suportar até se livrar dela. Agora ele precisa seguir em frente sem que um contamine o outro.

Contamina, claro. É esse o livro.

Vivian Lau é herdeira da joalheria do pai e organizadora de eventos de luxo por conta própria, um detalhe que ela faz questão de sublinhar, porque é a única coisa na vida dela que não veio de herança. Ela cresceu vendo o que dinheiro fez com a família — os pais perseguindo aceitação da alta sociedade com uma obsessão que beira o patológico — e decide a não deixar que isso a transforme em alguém que não reconhece. É complacente por hábito e por trauma, do tipo que aprendeu a engolir a própria vontade antes mesmo de formar a frase. E é justamente esse hábito que o livro passa 400 páginas desmontando.

O que funcionou em Vivian não foi a resiliência óbvia de heroína de romance. Foi a lentidão do processo. Ela não vira uma mulher que enfrenta o pai da noite pro dia porque um homem bonito apareceu na vida dela. Ela muda porque descobre, com Dante, uma coisa que nunca tinha experimentado em casa: discordar sem que a discordância vire ameaça de ser deserdada. Ele não é gentil. É só a primeira pessoa que não usa a obediência dela como preço de permanência. E é só depois de praticar discordância nesse ambiente controlado que ela consegue fazer isso valer no ambiente que sempre a machucou: com os próprios pais.

Dante, por outro lado, é ótimo de ler e péssimo de conviver, em doses quase iguais. Ele controla a própria casa a ponto de se irritar com o fato de que a chegada de Vivian bagunça uma organização que ele cultivou sozinho por anos. Ele não tolera crítica e, mais revelador ainda: ele é possessivo o suficiente para destruir a oferta pública de um ex-namorado de Vivian só porque o cara teve a ousadia de procurá-la. Isso não é romantizado como charme. O livro sabe exatamente o que é: raiva sem freio, disfarçada de proteção.

A dinâmica entre os dois funciona porque nenhum deles cede fácil. Casamento arranjado costuma andar de mãos dadas com submissão: ela aceita, ele impõe, os dois fingem que é romântico. Aqui não. Vivian se recusa a ser a noiva dócil que Dante presumiu que estava recebendo no pacote, e é exatamente essa recusa que o desestabiliza. O trope inteiro se sustenta numa ideia simples e sempre eficaz: proximidade forçada revela quem as pessoas são quando ninguém mais está olhando. E funciona aqui porque nenhum dos personagens usa a obrigação como desculpa pra não crescer.

O tema emocional do livro não é opostos se atraem. É escolha entre vingança e vulnerabilidade, e Ana Huang deixa isso literal a ponto de nomear o pecado do título: Dante é o Rei da Ira, e o livro pergunta, sem rodeios, se dá pra amar alguém enquanto você ainda está determinado a incendiar a vida do pai dela. A resposta óbvia é não. E o que mais funciona aqui não é o momento em que ele hesita — é perceber, algumas páginas depois, que hesitar e recuar são coisas completamente diferentes. Abrir mão de uma vingança, pra ele, não é sinal de crescimento, é sinal de fraqueza, e o livro brinca com essa lógica torta o tempo inteiro, deixando você na dúvida sobre o que vai pesar mais quando a hora chegar.

Preciso ser honesta: o começo custa a engatar. Os primeiros capítulos têm uma vibe quase de romance de época: a formalidade do casamento arranjado, a etiqueta da alta sociedade. Tudo isso deixa Dante e Vivian numa distância que demora a esquentar — e algumas atitudes dele logo de cara me deixaram mais apreensiva do que encantada. Não é pouca coisa pedir para a leitora atravessar 30% de um livro antes de se sentir cativada. Mas confia em mim aqui: vale a pena segurar essa onda. A partir dali a história pega tração e não solta mais: cada capítulo melhora o anterior, e a tensão vira o tipo de vício que você não quer interromper.

Isso não quer dizer que o livro seja imprevisível. Não é. Dá pra sentir o próximo passo chegando com boa antecedência na maior parte das viradas, e quem gosta de reviravolta genuína pode sair um pouco frustrada com isso. E tem uma inconsistência de personagem que me incomodou mais do que eu esperava: Vivian é apresentada como uma mulher financeiramente independente, dona do próprio negócio, e ainda assim aceita um casamento arranjado praticamente sem questionar, sem pedir tempo pra pensar. Os motivos que o livro dá pra isso existem, mas não sustentam o peso da decisão do jeito que sustentam as escolhas do Dante, que fazem sentido dentro da lógica dele o tempo inteiro.

A passagem de tempo também é um ponto fraco. Em vários momentos senti que perdi pedaços do desenvolvimento do casal. Dias ou semanas passavam de um parágrafo pro outro, e ficava aquela sensação de lacuna, como se uma cena importante tivesse sido cortada da montagem final. A química entre os dois é real, isso o livro entrega sem esforço. O problema é que esses saltos temporais tiram intensidade exatamente de onde ela mais precisava aparecer, e isso pesa de novo lá na frente: depois do dark moment, o livro resolve o reencontro rápido demais para o tamanho da mágoa que construiu. Eu esperava mais fricção antes do perdão. Não por duvidar do que os dois sentem, mas porque o livro inteiro é sobre Vivian aprendendo a parar de ceder fácil pra quem nunca mereceu essa complacência. Ver essa mesma Vivian perdoar Dante rápido demais é, sem querer, o livro contradizendo a própria lição que passou 400 páginas ensinando.

Mas tem uma coisa que Ana Huang acerta demais pra passar batido: não existe solução mágica pra questão que fica em aberto entre Vivian e a família dela. O livro não finge que um pedido de desculpas resolve anos de pressão. E isso, numa história que já entrega tanto escapismo (bilionário, chantagem, luxo excessivo), é um puxão de realismo que eu não esperava, mas agradeci muito.

Essa mesma vontade de não simplificar também aparece no jeito como o livro trata o racismo velado que a família de Vivian enfrenta tentando ser aceita numa alta sociedade branca que nunca vai considerá-los “tradicionais” o suficiente, não importa quanta fortuna acumulem. Não é o assunto central da história, mas está nomeado com honestidade nas entrelinhas, e isso dá à obsessão dos pais dela por status um peso que ultrapassa o clichê de “pais ricos e superficiais”. Huang também constrói bem o mundo em volta: o Valhalla Club, os amigos bilionários — Kai, Dominic — tudo com detalhe suficiente pra render curiosidade pelos próximos livros, sem roubar cena da história principal.

Rei da Ira não é sobre Dante deixar a raiva de lado. É sobre ele escolher entre a vingança e a mulher que ama, sabendo que qualquer escolha vai ter seu preço. E sobre Vivian aprendendo, enfim, que complacência não é a mesma coisa que amor.

É para você que…

  • Quer casamento arranjado com fogo de verdade, não um casal que finge implicância enquanto já está resolvido
  • Curte MMC possessivo que o livro reconhece como possessivo, sem fingir que é só ciúme fofo
  • Gosta de heroína que carrega complacência real, não perfeição de fábrica, e sente ela desmontando aos poucos
  • Quer abrir uma série de bilionários com um primeiro volume que já entrega tensão real, não só promessa

Não é para você que…

  • Precisa que a reconciliação final seja proporcional ao tamanho da mágoa que a precedeu
  • Tem pouca paciência com MMC que usa poder e dinheiro pra destruir quem incomoda a mulher dele
  • Quer imprevisibilidade nas viradas de trama, ou um começo que engate na primeira página
  • Espera coerência total entre quem a heroína diz ser e as decisões que ela toma

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